Entrevista traduzida de Eva para o Télérama

Pouco conhecida na França, a filha de Marlene Jobert conquistou Hollywood. Ainda, que incorpore a femme fatale, se diz tímida e até mesmo confessa o desejo de solidão.

Uma aparição. Desprovida do lado de estrela que procura agradar. Eva Green é misteriosa involuntariamente. << Eu venho de outro planeta >> ela se desculpa. Os olhos de um azul abissal lhe atestam. Ela veste preto, anéis sagrados, botas corsário, mas é muito gentil. Foi uma Bond Girl superior (A única que enlouqueceu o agente 007, de Casino Royale), foi Vamp e vampira, vestal, bruxa, amazona, médium (na série Penny Dreadful), é um caso: Uma atriz francesa que conquistou Hollywood, sendo quase desconhecida na França. Ela fala rápido, se desvaloriza tão facilmente, que se irrita. Uma pequena criatura selvagem, <<filha de Marlene Jobert>> que cresceu nos belos quarteirões, perto do parque Monceau, em Paris, leva uma vida reclusa em Londres. Hipersensível, ela parece se subtrair, a tudo: a cidade, as mundanidades, sua imagem. Mas, sonha ao mesmo tempo, em interpretar <<Uma guerreira fervorosa, como Joanna D’Arc>>. Ela não tem realmente idade, ela aprende todos os dias, a se conhecer.

Você está atualmente filmando o novo filme de Roman Polanski…

É um segredo claustrofóbico, adaptado do romance de Delphine de Vigan, D’après une histoire vraie. Um livro mental, perturbante, feito para Polanski. Eu mesma estou um pouco perdida, porque muda as cenas diariamente, testando várias pistas. O filme está em sua cabeça. Eu interpreto a amiga muito ambígua de uma escritora, que é interpretada por Emmanuelle Seigner. Uma espécie de dupla, da qual nos perguntamos se existe ou não. Um papel muito complicado…

Como ele é dirigido?

Eu nunca vi alguém tão obcecado com os detalhes. Além disso, os ângulos da câmera são singulares, longe de convenções. Ele conhece bem todos os profissionais, até a acessorista. É raro em nossos dias ver um cineasta também polivalente.

É o seu primeiro filme em francês depois de Ársene Lupin, de Jean Pierre Salomé há 12 anos. A língua afeta o seu trabalho?

Minha voz já não é a mesma coisa. Cada um tem várias vozes de acordo com suas emoções. O inglês, que não é minha língua materna, é como uma armadura. Para Casino Royale, precisava que meu tom “britânico” soasse impecável, eu tive muito trabalho com meu tradutor. As línguas estrangeiras ajudam a escapar de si mesma, a se descentrar. O inglês americano facilita exuberância, o insulto, porque não… Sobre Roman Polanski eu estava aliviada com a ideia de ser menos prisioneira da língua, de poder improvisar, mas, na verdade, eu tenho a impressão de estar nua. Moral: No francês, como no inglês, eu tenho o mesmo nervosismo. Esta questão da língua é interessante: O prazer de pronunciar tal consoante, de buscar seu som. Eu adoro o que é gutural: O alemão ou o árabe.

O seu pai é sueco. Você fala essa língua?

Infelizmente não, embora eu tenha nacionalidade sueca e que eu ouça o GPS de seu carro, meu pai não falava sueco conosco em casa. Eu conheço apenas alguns palavrões, mas eu tenho uma afinidade com essa língua, aninhada em meu subconsciente. Da minha atração pelos filmes de Ingmar Bergman, a literatura do norte: Ibsen…Eu sou muito orgulhosa da minha bisavó, que era de Haparanda, no norte da suécia. Ela foi a primeira fotógrafa repórter jornalista, no início do século XX. Ela se chamava Mia Green. Em sueco, se pronuncia <<Gréne>>, não <<Grine>>. Que significa <<ramo>>. E sim, Eva ramo, isso é tudo menos chic…

Que criança e adolescente você era?

Boa na escola, mas de uma timidez doentia, pânico com a ideia de fazer uma apresentação na classe. Eu tinha que passar meus orais de francês. Uma noite, eu disse a minha mãe <<Eu não quero ir à escola>>. Ela me disse <<Isso não é grave>>…Poucos pais reagiriam assim. Eu entrei para a escola americana, onde me senti muito melhor, porque haviam cursos de história, arte e fotografia…Criança, eu tinha a impressão de flutuar em um sonho ou de ser a voz de uma mulher velha que conta sua vida. As festas de aniversário, eram um pesadelo, eu temia os jogos, de não compreender as regras. Hoje ainda, eu não gosto de festejar o meu aniversário, talvez é um narcisismo invertido. No entanto: Eu tenho medo que tudo seja perdido. Eu quero que a música seja perfeita.

Apesar, ou por causa dessa timidez que você decidiu se tornar uma atriz…

Isso foi feito progressivamente. Eu senti um choque depois de L’histoire de Adele H de François Truffaut, e sua heroína comprometida profundamente no amor. Eu sou desde então, uma grande fã de Isabelle Adjani, que sempre me inspirou. Alguém completa, que não mente… eu decidi, por um momento, seguir o curso de arte dramática: Eva Saint-Paul contou muito. Eu sabia que queria este trabalho, mas eu ainda estava escondendo dos outros. Eu dizia que queria ser diretora. Eu comecei no teatro, com Dominique Labourier e Isabelle Gélinas, duas grandes mentoras. E, eu abandonei, muito nervosismo, o medo de errar, a angústia de recomeçar todas as noites. Mesmo quando eu não estou lá, eu tremo por aqueles que estão no palco. Talvez aí esteja a beleza do teatro… Eva Saint-Paul me disse muitas vezes que eu tinha sido feita para o palco. Talvez eu volte…

O seu primeiro filme Os sonhadores de Bernardo Bertolucci (2003), onde você está frequentemente nua. Um desafio sobretudo levando em conta a reputação de Bertolucci…

Minha mãe tentou me dissuadir. Mas eu adoro o seu trabalho. Eu tinha um enorme pôster de O Último Tango em Paris no meu quarto. A filmagem foi idílica. Eu guardo a lembrança de um filme de adolescência livre e feliz. Eu devo muito à Bertolucci. É graças a ele que eu estou aqui. Mas, eu ainda fico admirada de ter conseguido assim me doar, eu que sou tímida, desconfortável mesmo em um maiô. Eu sei das relações difíceis que Maria Schneider teve com ele, e o mal que ele a fez, mas comigo, ele tinha aprendido e envelhecido. Nós fomos todos muito bem tratados, como seus filhos.

<<Tão bela, que é indecente>> ele disse a você…

Eu reconheço ter a chance de não se preocupar muito com o meu físico. Pelo menos ainda não. Felizmente, porque eu duvido muito de mim de outras maneiras. É uma profissão relacionada à imagem. Eu sou consciente que o físico importa, mas eu aprecio mais quando falam de mim, e dizem que sou uma boa atriz. Senão, eu tenho a impressão de ser uma bela concha.

Fazer uma carreira em inglês, não foi uma maneira de você se destacar de sua mãe?

No início, sem dúvida. Depois de Bertolucci, eu encontrei um agente inglês, e eu comecei a gravar Kingdom of Heaven, de Ridley Scott (2005). Tudo se encadeou muito rápido. Eu decidi, então, me mudar para Londres, que eu amo profundamente, onde eu me sinto adulta. Em Paris, é um casulo: Eu volto a ser uma menininha.

Você fez dois filmes com Tim Burton, Sombras da noite e O Lar das Crianças Peculiares. Como você trabalhou com ele?

Muito visualmente. Nos comunicamos por meio de desenhos. Ele não gosta muito que a gente fale, que cavamos psicologias. Juntos, nós procuramos o visual. Depois, tudo passa por mímica, a voz do personagem, que ele encontra. Ele confia inteiramente nos atores. Com ele, você se sente livre e amado. Ele convida todos a fazer o seu pequeno show, e vê-lo entusiasmado é um prazer. O truque, é fazer demais. Como Tim não aposta nada no realismo, ele suscita fortemente o barroco, o excesso. Devemos saber equilibrar… Miss Peregrine é uma Mary Poppins sombria, com uma fala muito rápida e gestos de pássaros. Ela faz tudo para proteger suas crianças. Um papel sem nada sexual.

<<Gótica>> É uma etiqueta que você cola na pele…

Eu talvez procurei. Adolescente, eu amava The Cure e Edward mãos de tesoura, eu me vestia frequentemente de preto, e eu continuo, aliás. Mas se eu estudei Lady Mcbeth ou Mary Tudor, é porque meu professor de arte dramática me dava esses papéis para que eu fizesse violência. Daí me catalogam <<Dark>>, <<gótica>>, <<Femme fatale>>…talvez eu devesse raspar minha cabeça um dia, para escapar dessa reputação. Eu interpreto uma femme fatale com Roman Polanski, é verdade. Enquanto eu não sou tudo na vida, uma mulher simples, eu estou lutando.

Mais você encarna muito bem a <<Femme Fatale>>!

As Femmes Fatales, é verdade, eu interpretei em Sin City por exemplo. Mas eu também interpretei heroínas frágeis, perdidas, desequilibradas … Eu tenho a chance de fazer um trabalho que permite metamorfoses. Quando eu era pequena, eu pedia a minha mãe para me contar histórias com personagens que viveram experiências fortes, transformando o curso de sua existência.

Você é também, uma heroína que luta contra o mal. Em Penny Dreadful, você foi possuída, você levita. O trabalho em uma série de televisão, é diferente do cinema?

Sim e Não. Eu temia um ritmo desenfreado, de não poder trabalhar, como em Camelot (2011), outra série, que foi uma experiência bastante infeliz. Mas o criador, John Logan, deu-se ao trabalho. Ele começou na TV e se mostrou perfeccionista e doce. Ele me ofereceu um dos melhores papéis, permitindo uma estreita colaboração entre nós. Ele me enviou o roteiro dos episódios, perguntando o que eu pensava. Eu sugeri, por vezes, de reescrever algumas passagens. Um luxo extraordinário! É difícil se desfazer de uma experiência assim. Ao mesmo tempo, três anos, desse universo de trevas, é muito longo. Quando assinamos por uma série, damos a alma ao diabo, porque nós não sabemos quanto tempo ela durará.

Você diz que não recebe propostas de papéis na França.

Não me conhecem muito aqui. Eu tenho um agente francês por dois anos somente. Alguns devem imaginar que eu só amo a mitologia e o universo fantástico, que eu esnobo o cinema intimista ou realista. Nada me agradaria mais do que sujeitos ásperos, desde que sejam intensos. Os irmãos Dardenne, por exemplo, criam situações fortes, de conflitos interiores extremos … com a atriz sueca Alicia Vikander, eu recentemente gravei Euphoria, dirigida pela compatriota Lisa Langseth. A história de uma relação simbiótica e tensa entre duas irmãs. Ele é algo novo para mim.

Você poderia nos citar uma atriz importante para você?

Bette Davis. Tão livre e irreverente. Em O que aconteceu com Baby Jane?, de Robert Aldrish (1962), melodrama puro, ela é precisa, aguda, eficaz, muito física. Ela tem um senso de humor decapante. Ela fez toneladas e é divertido de assistir. Ela não teme nada.

Sua mãe te serviu de modelo?

Tenho que reconhecer, eu diria que não. Mas eu sempre destinei uma grande admiração por minha mãe atriz, porque ela é profundamente instintiva. É um animal. Estou orgulhosa dela e ela de mim. Enfim, foi isso que ela me disse…

Fora do cinema, a qual outra arte você é particularmente sensível?

A Fotografia. Em meus E-mails, eu muitas vezes junto as minhas pobres palavras uma foto, que é bem mais poético, sem necessariamente conhecer o autor. Eu sou bastante Geek, neste lado. Este é o lado positivo, mesmo extraordinário, da Internet. Eu faço a pesquisa por temas e descobri coisas simbólicas, surreais, às vezes muito antigas. Gosto de colecioná-las em meu computador. Elas são sempre em preto e branco. Concordo com o que Ted Grant disse, o fotojornalista canadense: << Se você fotografar pessoas em preto e branco, vou está fotografando sua alma. Enquanto que com cor você fotografa suas roupas >> Entre os meus artistas prediletos estão: Diane Arbus, Francesca Woodman, Sally Mann, Man Ray, Robert Frank …

Você gosta da sua época?

Não. Mas eu acho que se eu tivesse nascido um século atrás, o meu desconforto teria sido o mesmo. Cada época tem suas falhas: As mulheres não tinham muito poder, antigamente. Eu tenho a mesma impressão, que vivemos o fim de um ciclo, que chegamos a um impasse. O mundo ficou louco, e eu nunca vi tantas pessoas deprimidas ao meu redor.

O que você vai fazer depois das filmagens do filme de Roman Polanski?

Partir. Vou talvez na Nova Zelândia, eu nunca estive lá. Viajar sozinha, eu já fiz isso. Nós aprendemos muito sobre si mesmo. Você encontra também, o que não encontraria se você fosse com alguém. Eu gosto de andar com um propósito. No Butão, o que recompensa são os templos incríveis. Em fevereiro passado, eu estava na Tanzânia por um mês. Uma vez passei a fase difícil para as mulheres de sofrer com comentários desagradáveis <<Como isso? Você não é casada? e por quê?>>. É fabuloso, eu não sou religiosa, mas posso dizer que Deus vive lá. É uma natureza mística que rasga o coração.

E em 15 anos?

Eu me vejo em uma casa nas montanhas. Ou numa fazenda na Irlanda, cercada de animais. Longe do mundo. O mar? A não ser que seja selvagem, como na Bretanha. Porque as Maldivas…que chato! Eu gosto das paisagens que nós exploramos, que nós percorremos. A montanha é como uma ópera.

Fonte: http://www.telerama.fr/cinema/eva-green-je-joue-encore-une-femme-fatale-avec-polanski-alors-que-je-ne-le-suis-pas-dans-la-vie,152683.php